Durante a minha infância, quando os meus pais me perguntavam inutilmente se um dia gostaria de vir a ser Papa, respondia constantemente que nunca poderia enveredar pelo caminho da religião quando a minha verdadeira apetência era ser boxista. Não exactamente por estas palavras, já que a minha riqueza vocabular não o permitia, mas lembro-me ainda de completar a ideia esbracejando e socando a atmosfera, querendo facilitar a compreensão da família. Definitivamente rejeitava o título de Papa e teria todo o gosto em ser campeão mundial de pesos pesados. Hoje, porém, compreendo que são a mesma coisa. E sinto-me, uma vez mais, na obrigação de escutar a opinião dos mais velhos.
Confesso, envergonhado, que não sigo diariamente os eventos que decorrem no Vaticano, nem sei de cor as datas das visitas ao estrangeiro que Bento XVI tem planeadas. Estou ciente de que peco por isso e, num último esforço de me redimir perante o Senhor, liguei a televisão no dia de Natal em busca de uma luz. Segui o meu instinto, que me levou até ao Canal Panda, SIC Mulher e RTP África. Em nenhuma delas vislumbrei o que pretendia, e lembrei-me da falta que fazem as câmaras do Big Brother na basílica do Vaticano. Contudo, no dia seguinte a informação finalmente veio até mim e preencheu o meu interior com uma história nova de cristãos, possivelmente capaz de ser contada à volta de uma fogueira.
Fiquei a saber que, minutos antes da celebração da tradicional missa do Galo, uma senhora empurrou Ratzinger em pleno corredor central da basílica, enquanto este se dirigia ao altar. Por certo a opinião de noventa por cento da população mundial (os outros dez por cento desconhecem o facto) ficou a pensar que esta é mais uma cena normal de pancadaria a que nos habituou o Vaticano nos últimos anos, mas desengane-se quem pensa assim, porque desta vez há algo potencialmente interessante: é uma maluca repetente quem protagoniza o escândalo. Este enredo, se formos a ver, tem tudo para ser um sucesso na capa das revistas e como primeira notícia dos telejornais, apesar do habitual mau da fita. Baseia-se numa doente mental que falha o seu objectivo uma vez, e passa um longo e duro ano a treinar os seus atributos físicos, mentais (que bem precisa) e talvez mágicos para que, quando uma nova oportunidade surgir, ela a consiga aproveitar. O vilão, mais uma vez: o papa. Um cliché típico nas histórias do Vaticano, e não é justo que ninguém se lembre de saltar as barreiras de segurança, furar entre dois guardas e empurrar o presidente da comissão de cardeais. Não, não vemos isso, e já era altura de inovar um pouco.
Sem dúvida que estamos perante uma geração de gente forte e corajosa, para o bem e para o mal. No entanto, esta é uma situação que pode gerar vários mal-entendidos na opinião pública. Aparentemente, é de louvar a coragem da mulher que “atropelou” o Papa, ainda para mais tendo problemas psíquicos. Eu, por outro lado, arrisco e digo que são os seus problemas mentais que lhe conferem características especiais para além da insanidade, como a bravura e a ousadia. Não exactamente por estas palavras, já que a minha riqueza vocabular não evoluiu, mas sustento a ideia ao pular para cima do sofá e ao impelir a atmosfera freneticamente, para desgraça dos átomos que estiverem nas redondezas. Em suma, trata-se de uma potencial mulher com sucesso na armada militar americana, que optou por ter como hobby uma actividade muito particular: dar encontrões ao Papa.



