segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crónica: As Novas Tecnologias de Sócrates

Como é do conhecimento da opinião pública, Sócrates tem vindo a demonstrar-se um adepto fervoroso das novas tecnologias. É já bem conhecida a relação íntima que mantém com o computador Magalhães, no entanto nem tudo se resume a isso. Com menos cotação ao nível da imprensa, existe também o episódio que eleva o Primeiro-Ministro à condição de ser o primeiro e único líder partidário nacional a usar teleponto, suporte técnico utilizado na leitura de discursos e que transmite a sensação do orador estar a improvisar. Este teleponto, como o leitor consegue perceber, é no fundo um criador de ilusões, pelo que conseguimos perceber a existência de uma coesão entre o conteúdo e a tecnologia dos discursos de Sócrates. Não só recorre à táctica verbal, que consiste em promessas falsas, como utiliza a inovadora técnica visual, que cria a impressão de que “sabe a letra toda”, quando na verdade não é mais do que o aluno rebelde que vira político e usa cábulas. Consequentemente, há um ponto essencial a reter: a intenção do Engenheiro em não só ludibriar a audição como também a visão dos portugueses. Com efeito, verifica-se uma luta na Assembleia da República que se desenrola a pouco e pouco e que objectiva o controlo definitivo dos cinco sentidos de toda a gente.

Todo este plano pode parecer bizarro, mas convém não esquecer que José Sócrates é um homem com 52 anos e que caminha a passos largos para a casa das seis dezenas, portanto é um momento em que se deve esperar qualquer coisa da sua parte. E, aparentemente, usar a tecnologia para assumir o domínio corporal dos seus votantes é algo em que manifesta sincera e absoluta crença. E esta “jogada de engenheiro” é igualmente mais uma prova irrefutável de que o nosso Primeiro-Ministro é um homem todo “virado para a frente”. Poucos são os que nutrem tal empatia pela robótica e pela ciência como ele, e nem o penteado grisalho e old-school consegue afastar dele a imagem inovadora e progressista.

A manter a linha tecnologicamente avançada, circulou recentemente um SMS nos telemóveis dos militantes socialistas a convocá-los para uma manifestação de apoio a Sócrates, a decorrer no passado dia 20 de Fevereiro. A revolta, segundo essa mensagem de texto, tinha como objectivo “repudiar a campanha contra o PS e Sócrates e mostrar bem altas as bandeiras socialistas”. Tratava-se, portanto, de um movimento de apoio ao líder socialista, que bem precisa de apoio para governar da melhor forma o nosso país. Uma causa bastante nobre, diga-se, e os resultados desta manifestação são já um sucesso enorme no seio socialista. Ao todo, parece-me, contabilizaram-se 522 moscas-domésticas (Musca domestica), 378 moscas-varejeiras (Chrysomya albiceps), 125 moscas-de-chifres (Haematobia irritans) e 33 mosquitos (Culiseta longiareolata). Perante uma estatística como esta, “êxito”, “sucesso”, “grandioso” e “colossal” são palavras insuficientes para descrever um evento como este. Os números não mentem, e os 1058 insectos que marcaram presença na Alameda Fonte Luminosa, em Lisboa, às 15 horas do dia 20 de Fevereiro fizeram de uma simples manifestação de apoio um movimento de revolta à escala mundial. Impressionante, ainda para mais quando estiveram envolvidas quatro espécies diferentes de insecto.

Tremenda popularidade, como se constata, nunca seria possível se o Primeiro-Ministro não fosse um autêntico apoiante das novas tecnologias da informação e comunicação. A ciência pode já ter causado vários desastres, alguns deles com consequências graves para o ambiente inclusive, no entanto continua a formar cada vez mais e melhores políticos, ao passo que o direito e a economia não fornecem mais do que os créditos básicos para um político de segunda. É de louvar que a Alameda Fonte Luminosa tenha ficado tão cheia que nem os próprios humanos (Homo sapiens) que convocaram a manifestação puderam comparecer. Por tudo isso, e por um país melhor: um brinde às novas tecnologias da informação e comunicação!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Crónica: A Descendência de "Crepúsculo"

Todo e qualquer conhecedor de vampiros sabe que se trata de uma espécie que procria, deixando herdeiros na terra capazes de prosseguir a tradição da sua família, independentemente de esta ter como princípios morder pescoços e matar a sede com sangue humano. Para eles tudo isso é tão natural como para os humanos é comer um arroz de cabidela.

Actualmente existem duas coisas que me aborrecem: uma é o facto de os Black Eyed Peas terem feito uma música que passa a cada 5 minutos na rádio (tenho o feeling de que está a tocar agora enquanto lêem a crónica); outra é precisamente esta moda dos vampiros. Não chegava uma ou duas noites por ano durante o Carnaval, agora a sociedade necessita de pensar que possui caninos afiados e super-poderes para conseguir viver uma vida feliz. E mais uma prova disso mesmo é a criação destas duas séries televisivas com base nessas criaturas. “Crepúsculo” deu à luz, e mantém a sua descendência a tratar de fazer os espectadores passarem um mau bocado. Se antes era no cinema, agora “apenas” existirá o “mal” no pequeno ecrã. No entanto, ao crescerem, estou certo que na fase adulta “Destino Imortal” e “Lua Vermelha” poderão ingressar no grande ecrã e assim causar o caos a uma nova escala.

Não deixa de ser esquisito. Estarão a SIC e a TVI a passar um período conturbado de finanças ao ponto de colocarem vampiros a lutar por audiências? Não será suficiente um punhado de jornalistas e actores para singrar com a combinação de Telejornal seguido de novelas até às 7 da manhã do dia seguinte? Era preciso ir chatear os vampiros e os morcegos, que tão bem descansavam na Transilvânia, para virem fazer o trabalho sujo? O que passa na cabeça dos mentores da TV portuguesa para nos oferecerem duas estreias da mesma coisa? Para estas questões talvez nem Deus tenha a resposta. Actualmente, crê-se que Drácula sim, é o todo poderoso com a solução para todos os problemas.

Se o leitor em questão for uma rapariga do 3º ciclo, para si tudo o que tenha a ver com vampiros passa a ser obrigatório, caso queira afastar o rótulo de “anti-social”. Está inserida num grupo de amigas cujos temas de conversa são a musculatura e a beleza do protagonista do “Crepúsculo”, não tem por onde fugir. No entanto, se for um adolescente do secundário, é certo que vai pedir para ir tomar café com os amigos no horário destes programas, não querendo correr o risco de ficar de castigo por estar em casa sem estudar, e ser assim obrigado a vê-los junto da sua irmãzinha mais nova, que não pestaneja nem descola do sofá.

Sobretudo, não se deixem morder!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Crónica: A Terra dos Macacos do Árctico

Ouvi dizer que há dias atrás uns tais de “macacos do árctico” estiveram em Portugal pela terceira vez e deram dois concertos (a Norte e a Sul) que serviram para acabar com a “fome” dos admiradores portugueses. E, felizmente, não só ouvi dizer como também estive presente no evento do Porto, que decorreu no respectivo Coliseu e não no Jardim Zoológico, e perto dos ursos polares, como alguns poderão pensar.

A Blitz, revista de música que tem por obrigação fazer a cobertura dos concertos, digamos que preferiu ignorar literalmente a fantástica exibição no Porto para publicar no dia seguinte um artigo com a análise completa do concerto no Campo Pequeno, em Lisboa, que não duvido que tenha sido igualmente brilhante. No entanto, assistimos mais uma vez a uma discriminação do Norte para conferir aos meninos do Sul todo o protagonismo. E trata-se definitivamente de um favoritismo cego e mudo pela capital, que comprova a peculiaridade do nosso país. De facto só em Portugal é que se vêm concertos dados numa praça de touros a serem sobrevalorizados em relação a outros que se realizam em construções próprias para eventos de cultura. Como tal, os braços da cidade invicta que outrora estavam prontos para receber o pessoal da Blitz serão provavelmente os mesmo que da próxima vez que os virem quererão agredi-los com toda a força. E quem censurará esses braços…

Os fãs dos Arctic Monkeys em Portugal tiveram mais uma oportunidade de assistir ao vivo a uma performance estonteante dos britânicos. A banda encheu o Coliseu do Porto (e o de Lisboa, segundo o que a Blitz informa detalhadamente) e levaram ao rubro um número indefinido (mas certamente grande) de pessoas presentes. Depois da sua última visita, em 2007, trouxeram na bagagem o novo álbum “Humbug”, lançado em Agosto de 2009, que contém um leque de canções com uma sonoridade mais calma, pesada e algo “sombria”. É curioso, pois para quem houve o “Humbug” pela primeira vez certamente questiona se é realmente Arctic que está a ouvir. As melodias fogem a tudo o que a banda havia feito até então. Depois de dois álbuns com ritmos contagiantes e guitarras explosivas, passamos para um terceiro com uma “passada” mais lenta, e onde as letras são verdadeiras 10 maravilhas.

Por isso mesmo não terá sido o concerto para os psico-maníacos que querem mosh em todas as músicas, e sim o concerto para os que apreciam pura e simplesmente… música. Contudo, admito que os antigos singles foram os pontos altos do concerto, com “Brianstorm” a figurar em segundo lugar no alinhamento (incrível como já transpirava numa fase tão inicial!), com “When the Sun Goes Down” a proporcionar o delírio perto do fim, e com “Flurescent Adolescent” a encantar no encore. “Secret Door”, uma balada de “Humbug”, teve direito a uma cascata de papelinhos que ofereceu mais um epic moment ao concerto. O público esteve geralmente bastante activo, e a interacção do vocalista Alex Turner com os presentes atingiu o pico quando alguém atirou uma camisola de um certo clube de futebol (que não pretendo divulgar), e ele a colocou na bateria do parceiro Matthew Helders. A mim calhou-me a sorte de estar perto das grades, o que me facultou uma excelente visão para o palco. No entanto, calhou-me igualmente a sorte de ter perto de mim um jovem extasiado que fingia freneticamente tocar bateria no ar e passou todo o concerto a gritar “Fake Tales!”. Pedia, portanto, aos “macacos” para tocarem a música “Fake Tales of San Francisco”. Coisa que não aconteceu, talvez porque a banda reparou na aparatosa figura do sujeito a martelar o ar com um baquetas invisíveis.

Depois de mais de hora e meia a vibrar, consegui a magnífica proeza de apanhar um papel com o alinhamento das músicas tocadas, atirado pela malta do staff antes de começarem a arrumar os instrumentos. Mandaram vários papéis, depois de amarrotá-los, e ou não fossem os meus dotes de basebol secretos ou não teria fechado a mão na precisa altura em que o papel a tocou. Um extra que ajudou a marcar ainda mais o momento. Posto isto, sou obrigado a contrariar um princípio que mantenho desde criança: fui ver um quarteto de macacos a tocar e a cantar música… e adorei. É uma frase que nunca me imaginei a proferir. No entanto, aqui está a ela.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Crónica: O Terror dos Saldos

Quando o Natal chega é tempo de paz, harmonia e família. O Ano Novo chega, e é tempo de esperança, união e festejo. Os saldos chegam e é período de agressividade, obsessão e disputa. Deveras interessante verificar que, em três frases simples, está implícito um estudo do comportamento humano em função das diferentes alturas do ano. Com tempo ainda para ser lavrada uma rima da frase que enuncia essa conclusão.

Ora, o que tem a época de saldos de tão especial para ser capaz de motivar uma revolução nos padrões de conduta do Homem? E com “Homem” refiro-me, como bem sabem, às mulheres. O que muda para que os laços de paz e amor sejam quebrados tão rapidamente e de forma quase macabra? É algo que a ciência talvez não seja capaz de descobrir, mas as notícias revelam que a descida de preços consegue manipular as hormonas femininas, acrescentando-lhes uma personalidade mais primitiva, selvagem, e quem sabe talvez assassina.

O ego das mulheres, outra das suas características peculiares, consegue realmente ultrapassar barreiras e tomar proporções nunca vistas em qualquer outro lado que não uma loja de roupa, sem dúvida o palco principal desta altura. Para elas, os saldos tratam-se de uma luta pela sobrevivência, uma batalha cujo prémio é levar o melhor vestido ao melhor preço, ou o melhor par de botas, ou o melhor chapéu de pluma, ou a melhor meia de riscas, ou a melhor cueca rendada, ou o que quer que seja que as suas mentes imprevisíveis consigam pensar, com a condição de haver promoção pelo meio. Particularmente voluptuoso para o espectador de boxe, que nesta altura se pode privar da Eurosport para assistir ao vivo a duelos intensos onde vislumbra olhares fulminantes, puxões de cabelos, mordidelas nas mãos, e bofetadas na bochecha. Uma delícia.

Com o carro a bater os 250, elas tomam a iniciativa louca e desvairada de partir o quanto antes e na ausência do marido, uma vez que não estão para aturar a lentidão com que este conduz o carro e que as faz chegar vinte minutos mais tarde, altura em que consideram já ter perdido o “peixe graúdo”. No entanto, não pensem que o esposo se safa. O pobre coitado é obrigado a ir ter ao shopping depois, ou não houvessem 320 sacos para serem carregados até à mala do carro. Na grande maioria dos casos, o homem vê-se forçado a interromper a corrida de touros da RTP para enveredar na “corrida aos saldos” típica da estação feminina.

Retomando o percurso feito pelas senhoras até ao centro comercial, verifica-se que estacionam o carro de forma descontrolada, ocupando em algumas situações não um, não dois, mas três lugares, e disparam em direcção às lojas. Ou, como lhes costumo chamar, o seu “Mundo Encantado dos Brinquedos”. O cambalear doentio de salto alto até à Zara faz-se em menos de dois minutos, quer sejam 20 ou 500 metros, tal é a sua motivação e disciplina. Uma vez lá dentro, o olhar multiplica-se. “Saia curta e floreada às 3 horas, camisa branca de seda às 10 horas e jeans extremamente lindos às 12 horas”, pensam. E, uma vez feito o reconhecimento do terreno, é hora de atacar as presas.

O cambalear que outrora se devia ao caminhar exasperado de saltos, passa a ser responsabilidade do avolumado de peças que descansa num dos ombros das senhoras. Tudo parece decorrer pacificamente, como a mãe Natureza o havia planeado, até que as mãos de duas mulheres tocam a mesma peça, ao mesmo tempo. Bem ao estilo feminino, começam por um toque leve e avaliador, ajuizando o valor do tecido. Mas quando reparam que mais alguém ameaça levar a sua caça, puxam-na sem mais nem menos, tentando superar a adversária num bruto teste de força. “Fui eu que peguei nela primeiro! Dê cá isso, sua desgraçada, intrometida!”, diz uma. “Esteja calada, eu vi-a primeiro, é o que interessa! Já olhou bem para si? Aprenda-se a vestir primeiro antes de falar!”, replica a outra. É curioso, pois a partir de certo momento não está em causa a peça, mas sim o seu próprio ego. Depois da avaliação rápida que fizeram à indumentária, podem até considerar que de facto não se trata de roupa de grande qualidade, que provavelmente não levariam em condições normais. Mas a partir do momento em que mais alguém a cobiça, terão de levá-la para casa custe o que custar. Inclusive a vida.

São de facto momentos em que mulheres que disputam roupa conseguem ser tão emocionantes como dois gigantes de 220 quilos que pelejam por um título de pesos pesados. Tem até tudo o que é necessário para figurar no horário nobre de um canal desportivo. Os ingredientes estão lá: é tão físico como uma luta de sumo, e tão emocional como o programa “Tardes da Júlia”. Uma briga das antigas, pode-se dizer.

Posto isto, quando tudo finda e Fevereiro chega, o resto do ano avizinha-se monótono, sendo passado a percorrer catálogos da La Redoute e, sobretudo, a fazer poupanças para dali a um ano… a festa ser ainda maior.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Crónica: Há Tentativas Bonitas... Mas Esta Exagera!

O Mundo estava em choque há duas semanas com o nascimento do Messias. O Mundo viveu a passagem de ano em choque com a agressiva crítica de “Manel” Moura dos Santos ao “Carlitos” do programa “Ídolos”. E o Mundo continua em choque com a recente tentativa de atentado a um avião norte-americano da Delta Airlines. A existir uma altura estranha para uma reacção eléctrica como esta seria certamente a presente, ou não fosse a quadra natalícia já caracterizada pelas suas luzes e sinos a piscar.

No entanto, desta vez estima-se que falamos sem sobra de dúvidas de um evento de gabarito puxado, a que nos vem habitando a sociedade terrorista Al-Qaeda desde 2001. Digamos que foi sim algo digno do seu nome e pouco visto nos dias de hoje, uma vez que o telejornal insiste em passar simples massacres e acidentes rodoviários, incapazes de encher o olho aos adeptos mais góticos do programa. E os nossos parabéns pelo feito.

Segundo os dados estatísticos, contabilizou-se que 253 feridos ficaram por ferir, 25 pessoas e 2 gatos ficaram por ceifar, 1 bomba ficou por explodir, 1 avião ficou por esborrachar, 1 atentado ficou por cometer, e mesmo assim aqui surge o tema nesta tentativa de crónica. Posto isto, trata-se sem dúvida de uma das maiores tentativas de atentado terrorista da história. Contudo, abortou devido a pequenos detalhes.

Entidades da Al-Qaeda revelaram que a falha se deveu a problemas técnicos na bomba, confirmando aquilo que já sabíamos, a ausência de engenheiros na sociedade, que por isto ou por aquilo preferem uma vida pacífica ao lado da esposa e com um trabalho honesto na mão. Vá-se lá saber porquê.

Esta tentativa de atentado, por ter acontecido no dia 25 de Dezembro revela potencialmente uma revolta não contra a política ou exército americanos mas sim contra o próprio Jesus. E o seu nascimento, à meia-noite, veio com certeza na hora certa, já que na hora do tudo ou nada a humanidade necessitou por momentos de um mágico poderoso para inverter a conclusão dos acontecimentos. Valeu-nos o seu conhecimento sobre o funcionamento e constituição de material explosivo. De novo um milagre, e aos que saíram ilesos deixamos a nota: Mateus, 8:7 – “E Jesus disse: Eu irei e lhe darei saúde”. Mais uma vez, prometeu e cumpriu. Nobre cavalheiro.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Crónica: Entradas Para Tudo e Para Todos

Domingo, 3 de Janeiro de 2010. A esta hora já ocorreu há muito a viragem do ano, que significou também o início da nova década. Ainda não foi desta que o mundo estourou, para desânimo e frustração dos videntes anunciadores de catástrofes, mas o clima continua de chuva. Oxalá venha mais um granizo para que eles tenham boas entradas. Considero esta uma época especialmente dispendiosa e sofrida para esta classe social, na medida em que consoam como quem come a última refeição, pois é nisso mesmo que acreditam. A meia-noite, essa, deve ser particularmente dolorosa quando constatam que ainda estão vivos. Profissão de sacrifício…

Para os simples estudantes de todo o mundo é tempo de arranjar um calendário e de contabilizar o número de feriados que coincidem com os dias de semana. Quando constatarem que o 25 de Abril e o 1 de Maio são a um domingo e a um sábado, respectivamente, por certo deitarão as mãos à cabeça e começarão a planear uma semana estratégica para simular gripe A.

Os professores portugueses, que aproveitaram o Ano Novo para festejar devidamente com champanhe o despedimento de Maria de Lurdes Rodrigues, vêm agora surgir um novo inimigo. Desta feita trata-se do acordo ortográfico estabelecido em 1990 pelos países cuja língua oficial é portuguesa. São sete, no total, com Portugal incluído, surpreendentemente. As novas regras aplicam-se à maneira como se escrevem as palavras, no entanto as alterações continuam em stand-by por parte do Ministério da Educação. O escritor Vasco Graça Moura arrisca em chegar mais longe ao dizer que “quem não está a aceitar isto são umas baratas tontas na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”. No entanto, há quem diga que hesitou ao proferir o bicho da sua comparação, por não saber se “barata” se escreve agora com “c” antes do “t”. O que é, no mínimo, jocoso.

Já os estudantes escritores de crónicas, como de costume, estarão a esta hora a percorrer a caixa de entrada do telemóvel, seleccionando estranhas e caricatas mensagens de Natal e Ano Novo para partilhá-las no primeiro texto de 2010. Como tal, espero encontrar o leitor no navio em que supostamente embarquei rumo a este ano. O destino, curiosamente, é a felicidade (que sinceramente, e para minha vergonha, desconheço geograficamente) assim como a bagagem permitida se sustenta à base de alegria, saúde, amor, harmonia e “muita” paz. Quando li a mensagem temi não ter malas em casa suficientes para carregar tanto peso, mais ainda quando o remetente pedia “muita paz” e não apenas “paz”, dificultando a minha vida. No entanto, uma pessoa lá arranja maneira de sobreviver perante dificuldades como essa e aqui estou eu…

Outro amigo, contudo, alertou-me para a sorte que tinha se levasse com excremento de pombo na cabeça, uma vez que nesta altura do ano as renas também voam. Se o objectivo dele era pôr-me a rezar para sentir fezes de pombo no corpo, posso dizer que falhou o objectivo. Até porque, quanto sei, as renas têm cornos e não asas. Perante a complexidade deste tipo de mensagens, prefiro outras mais simples e igualmente perceptíveis. E é citando uma delas que vos desejo um “ai uish iu a end a epi niu iar grohl ka sbu xte” 2010. Em alturas como esta, isto sim são frases de encher o olho com lágrima!

sábado, 26 de dezembro de 2009

Crónica: Queira Deus Que Não Me Empurrem

Durante a minha infância, quando os meus pais me perguntavam inutilmente se um dia gostaria de vir a ser Papa, respondia constantemente que nunca poderia enveredar pelo caminho da religião quando a minha verdadeira apetência era ser boxista. Não exactamente por estas palavras, já que a minha riqueza vocabular não o permitia, mas lembro-me ainda de completar a ideia esbracejando e socando a atmosfera, querendo facilitar a compreensão da família. Definitivamente rejeitava o título de Papa e teria todo o gosto em ser campeão mundial de pesos pesados. Hoje, porém, compreendo que são a mesma coisa. E sinto-me, uma vez mais, na obrigação de escutar a opinião dos mais velhos.

Confesso, envergonhado, que não sigo diariamente os eventos que decorrem no Vaticano, nem sei de cor as datas das visitas ao estrangeiro que Bento XVI tem planeadas. Estou ciente de que peco por isso e, num último esforço de me redimir perante o Senhor, liguei a televisão no dia de Natal em busca de uma luz. Segui o meu instinto, que me levou até ao Canal Panda, SIC Mulher e RTP África. Em nenhuma delas vislumbrei o que pretendia, e lembrei-me da falta que fazem as câmaras do Big Brother na basílica do Vaticano. Contudo, no dia seguinte a informação finalmente veio até mim e preencheu o meu interior com uma história nova de cristãos, possivelmente capaz de ser contada à volta de uma fogueira.

Fiquei a saber que, minutos antes da celebração da tradicional missa do Galo, uma senhora empurrou Ratzinger em pleno corredor central da basílica, enquanto este se dirigia ao altar. Por certo a opinião de noventa por cento da população mundial (os outros dez por cento desconhecem o facto) ficou a pensar que esta é mais uma cena normal de pancadaria a que nos habituou o Vaticano nos últimos anos, mas desengane-se quem pensa assim, porque desta vez há algo potencialmente interessante: é uma maluca repetente quem protagoniza o escândalo. Este enredo, se formos a ver, tem tudo para ser um sucesso na capa das revistas e como primeira notícia dos telejornais, apesar do habitual mau da fita. Baseia-se numa doente mental que falha o seu objectivo uma vez, e passa um longo e duro ano a treinar os seus atributos físicos, mentais (que bem precisa) e talvez mágicos para que, quando uma nova oportunidade surgir, ela a consiga aproveitar. O vilão, mais uma vez: o papa. Um cliché típico nas histórias do Vaticano, e não é justo que ninguém se lembre de saltar as barreiras de segurança, furar entre dois guardas e empurrar o presidente da comissão de cardeais. Não, não vemos isso, e já era altura de inovar um pouco.

Sem dúvida que estamos perante uma geração de gente forte e corajosa, para o bem e para o mal. No entanto, esta é uma situação que pode gerar vários mal-entendidos na opinião pública. Aparentemente, é de louvar a coragem da mulher que “atropelou” o Papa, ainda para mais tendo problemas psíquicos. Eu, por outro lado, arrisco e digo que são os seus problemas mentais que lhe conferem características especiais para além da insanidade, como a bravura e a ousadia. Não exactamente por estas palavras, já que a minha riqueza vocabular não evoluiu, mas sustento a ideia ao pular para cima do sofá e ao impelir a atmosfera freneticamente, para desgraça dos átomos que estiverem nas redondezas. Em suma, trata-se de uma potencial mulher com sucesso na armada militar americana, que optou por ter como hobby uma actividade muito particular: dar encontrões ao Papa.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal e Próspero Ano Novo

Desejo um Feliz Natal e Próspero Ano Novo a todos os visitantes !!!
Que estes sejam dias de grande felicidade , e que possamos entrar com o pé esquerdo, já que depois de tantos anos a entrar com o direito e a não ver todos os nossos desejos realizados, possa ser desta que o melhor acontece.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Crónica: Natal Sangrento

A vida é feita de coisas boas, como a Sport TV e as bolachas “Maria”, se bem que eu prefira até as de “água e sal”. Há outras coisas também: o desporto proporciona a vitória e a recompensa, os livros atribuem o conhecimento, e o cinema então é uma constante cascata de sucessos. Há muito tempo que escuto pessoas a dizerem que a vida é feita de êxitos. Nunca associei isso a algo específico, mas penso agora que se referem quase inteiramente à vertente da sétima arte.

Anda em exibição há uns tempos o segundo filme da saga “Crepúsculo”, que se tornou em poucos dias o mais visto em Portugal. Trata-se, portanto, de um sucesso. Um sucesso que eu nunca vi nem pretendo assistir num futuro próximo. Talvez por o achar um filme que agrada especialmente ao público feminino, pretendo manter-me afastado da massa que grita e gesticula esbaforidamente ao som do nome do actor principal. Mas é de relembrar que antes dele outra película esteve no topo nacional, e antes dessa outra, e outra, e outra ainda. Poucos são os fracassos, se formos a interpretar, porque mesmo um filme que cria expectativas enormes aquando da sua produção e que depois se torna uma tremenda desilusão, obteve algo inegável e que significa a conquista de um dos principais objectivos inerentes à sua criação: o lucro das bilheteiras. Um mau filme que gera milhões trata-se mesmo de um mau filme? Talvez só a carteira o poderá dizer…

É curioso que na época de Natal se ouça falar mais de vampiros do que do Pai Natal. “Lua Nova”, conquistou um lugar não só na memória de quem o anda a visionar, como também na chaminé de sua casa, pois parece não haver já espaço para o barbudo. A sociedade reflecte estas mudanças, e estou profundamente amedrontado ao imaginar que no futuro poderei ter um filho que encosta a boca ao meu ouvido e sussurra: “pai, vou pedir um baralho de cartas ao Pai Drácula.” A continuar nesta veia gótica, a pouco e pouco o Carnaval em nada irá perder para o Dia das Bruxas, que igualmente se sustenta nestas ideais fantasiosos e de dentes afiados. A decoração típica da próxima geração ainda se sustentará à base de morcegos colados no tecto dos quartos. De facto, um cenário que me tira o sono por breves momentos. E que eu tento contrariar colocando na mesa-de-cabeceira um boneco da Hello Kitty.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Crónica: "Bin, o Mestre das Escondidas"

Mais uma bomba cai de rajada nos EUA. Desta vez os visados foram as forças norte-americanas que, na sua incompetência, permitiram a fuga do cidadão banal Osama Bin Laden. O ídolo infantil enfrenta um grande dilema: toda a gente sabe onde está, mas ninguém sabe como ele é. Assim deixamos de estar perante um caso de fuga, para passarmos talvez a encarar tudo como um baile de máscaras. Digamos que é um género de Halloween, em que o verdadeiro mauzão se esconde por detrás de uma cabeça de abóbora.

O terrorista, ou como preferimos chamar, o super-herói dos vilões, é já recordista do Guiness ao vencer o Campeonato Mundial das Escondidas por 8 longos anos consecutivos. Contudo, imaginamos a sua tristeza e frustração na medida em que, por ninguém conhecer a sua aparência (já que todos sabem onde ele está), não há modo de lhe entregarem qualquer tipo de prémio, lembrança, ou de o convocarem para uma celebração emblemática.

Se bem nos lembramos, tudo começou em 2001, no famoso “nine/eleven”, ou 11 de Setembro, quando dois aviões atingiram as duas torres, mais conhecidas por “World Trade Center”. Bin Laden foi o manda-chuva que planeou o atentado. Ao que apurámos, o afegão havia sido encurralado numa montanha em Tora Bora. No entanto, os EUA, perante 1000 homens da Al-Qaeda, apenas enviaram poucas unidades armadas. Como tal, o resultado foi a fuga do barbudo para paradeiro incerto. É o que dá armarem-se em corajosos, já que no final acabam armados em meros medricas.

Provavelmente a caça ao homem ainda continua, que é como quem diz: prossegue o campeonato das escondidas. O favorito é o campeoníssimo Osama, sendo que a percentagem de vitória é praticamente total. Faria de todo uma aposta segura no Totobola desta semana. Descobrimos que, assim como em casa assistem a séries como “Prison Break”, ao vivo podem, por enquanto, seguir esta trama que promete não acabar tão cedo quanto isso. Não percam o próximo episódio, porque nós vamos perdê-lo e precisamos que nos contem o resto da história.