Como é do conhecimento da opinião pública, Sócrates tem vindo a demonstrar-se um adepto fervoroso das novas tecnologias. É já bem conhecida a relação íntima que mantém com o computador Magalhães, no entanto nem tudo se resume a isso. Com menos cotação ao nível da imprensa, existe também o episódio que eleva o Primeiro-Ministro à condição de ser o primeiro e único líder partidário nacional a usar teleponto, suporte técnico utilizado na leitura de discursos e que transmite a sensação do orador estar a improvisar. Este teleponto, como o leitor consegue perceber, é no fundo um criador de ilusões, pelo que conseguimos perceber a existência de uma coesão entre o conteúdo e a tecnologia dos discursos de Sócrates. Não só recorre à táctica verbal, que consiste em promessas falsas, como utiliza a inovadora técnica visual, que cria a impressão de que “sabe a letra toda”, quando na verdade não é mais do que o aluno rebelde que vira político e usa cábulas. Consequentemente, há um ponto essencial a reter: a intenção do Engenheiro em não só ludibriar a audição como também a visão dos portugueses. Com efeito, verifica-se uma luta na Assembleia da República que se desenrola a pouco e pouco e que objectiva o controlo definitivo dos cinco sentidos de toda a gente.
Todo este plano pode parecer bizarro, mas convém não esquecer que José Sócrates é um homem com 52 anos e que caminha a passos largos para a casa das seis dezenas, portanto é um momento em que se deve esperar qualquer coisa da sua parte. E, aparentemente, usar a tecnologia para assumir o domínio corporal dos seus votantes é algo em que manifesta sincera e absoluta crença. E esta “jogada de engenheiro” é igualmente mais uma prova irrefutável de que o nosso Primeiro-Ministro é um homem todo “virado para a frente”. Poucos são os que nutrem tal empatia pela robótica e pela ciência como ele, e nem o penteado grisalho e old-school consegue afastar dele a imagem inovadora e progressista.
A manter a linha tecnologicamente avançada, circulou recentemente um SMS nos telemóveis dos militantes socialistas a convocá-los para uma manifestação de apoio a Sócrates, a decorrer no passado dia 20 de Fevereiro. A revolta, segundo essa mensagem de texto, tinha como objectivo “repudiar a campanha contra o PS e Sócrates e mostrar bem altas as bandeiras socialistas”. Tratava-se, portanto, de um movimento de apoio ao líder socialista, que bem precisa de apoio para governar da melhor forma o nosso país. Uma causa bastante nobre, diga-se, e os resultados desta manifestação são já um sucesso enorme no seio socialista. Ao todo, parece-me, contabilizaram-se 522 moscas-domésticas (Musca domestica), 378 moscas-varejeiras (Chrysomya albiceps), 125 moscas-de-chifres (Haematobia irritans) e 33 mosquitos (Culiseta longiareolata). Perante uma estatística como esta, “êxito”, “sucesso”, “grandioso” e “colossal” são palavras insuficientes para descrever um evento como este. Os números não mentem, e os 1058 insectos que marcaram presença na Alameda Fonte Luminosa, em Lisboa, às 15 horas do dia 20 de Fevereiro fizeram de uma simples manifestação de apoio um movimento de revolta à escala mundial. Impressionante, ainda para mais quando estiveram envolvidas quatro espécies diferentes de insecto.
Tremenda popularidade, como se constata, nunca seria possível se o Primeiro-Ministro não fosse um autêntico apoiante das novas tecnologias da informação e comunicação. A ciência pode já ter causado vários desastres, alguns deles com consequências graves para o ambiente inclusive, no entanto continua a formar cada vez mais e melhores políticos, ao passo que o direito e a economia não fornecem mais do que os créditos básicos para um político de segunda. É de louvar que a Alameda Fonte Luminosa tenha ficado tão cheia que nem os próprios humanos (Homo sapiens) que convocaram a manifestação puderam comparecer. Por tudo isso, e por um país melhor: um brinde às novas tecnologias da informação e comunicação!

