À primeira vista, um sucateiro pouco tem a ver com um político. Enquanto o primeiro gere o monopólio do ferro-velho, o segundo dorme a sesta na Assembleia. No entanto, nem tudo o que parece é, e quando pensamos que já nada nos surpreende, eis que surge uma nova personagem, desta vez com bigode, e baptizada de “Zé” Godinho.
O homem do lixo, cabecilha de uma rede tentacular que envolve as maiores empresas do país, cansou-se dos míseros tostões (de lata) que auferia, e mudou de táctica, optando pelo nobre e louvável caminho da corrupção. Muitos acham a sujeira uma matéria desprezável e malcheirosa, mas o nosso conterrâneo nutre afecto por ela, e consegue transformá-la na sua fonte de riqueza. O que é de todo bem pensado, visto que imundície é coisa que não falta cá
Não contente com um ou dois desvios e meia dúzia de vendas de cobre escondido, acumulou nada mais, nada menos do que 37 crimes. Trata-se, portanto, do típico caso do homem com um grande vício: o da trafulhice. Seria preferível que fumasse? Talvez, mas dessa maneira estaria a gastar dinheiro numa máquina de cigarros que nunca lhe daria o retorno financeiro de que tanto gosta. E não poderia prejudicar os outros, lembrem-se. São dois factores essenciais para a vida de “Zé” Godinho, e para os quais ele deve rezar antes e após as refeições.
Ao que se apurou, o “pulha” tinha uma hierarquia de subordinados a quem oferecia bens materiais para que os seus crimes permanecessem no segredo divino. Como tal, aos mais inteligentes (e importantes, talvez) oferecia carros de alta cilindrada; a outros, não tão condignos (e com uma ligeira diminuição de QI), brindava apenas com quantias de dinheiro; por último, aos mais lorpas, entregava sacos de cimento. Sim, leram bem, Godinho subornava gente com sacos de argamassa e essas pessoas, mais do que satisfeitas, iam provavelmente acabar as marquises lá de casa, quais trolhas de fato e gravata. Quem não deve achar piada de todo são por certo os ambientalistas, que temem perder a luta a favor da reciclagem com o lixo cada vez mais a dar que facturar.



