terça-feira, 10 de novembro de 2009

Crónica: "O Meu Dinheiro Pelo Teu Lixo, Por Favor"

À primeira vista, um sucateiro pouco tem a ver com um político. Enquanto o primeiro gere o monopólio do ferro-velho, o segundo dorme a sesta na Assembleia. No entanto, nem tudo o que parece é, e quando pensamos que já nada nos surpreende, eis que surge uma nova personagem, desta vez com bigode, e baptizada de “Zé” Godinho.

O homem do lixo, cabecilha de uma rede tentacular que envolve as maiores empresas do país, cansou-se dos míseros tostões (de lata) que auferia, e mudou de táctica, optando pelo nobre e louvável caminho da corrupção. Muitos acham a sujeira uma matéria desprezável e malcheirosa, mas o nosso conterrâneo nutre afecto por ela, e consegue transformá-la na sua fonte de riqueza. O que é de todo bem pensado, visto que imundície é coisa que não falta cá em Portugal. Palmas para o senhor Godinho!

Não contente com um ou dois desvios e meia dúzia de vendas de cobre escondido, acumulou nada mais, nada menos do que 37 crimes. Trata-se, portanto, do típico caso do homem com um grande vício: o da trafulhice. Seria preferível que fumasse? Talvez, mas dessa maneira estaria a gastar dinheiro numa máquina de cigarros que nunca lhe daria o retorno financeiro de que tanto gosta. E não poderia prejudicar os outros, lembrem-se. São dois factores essenciais para a vida de “Zé” Godinho, e para os quais ele deve rezar antes e após as refeições.

Ao que se apurou, o “pulha” tinha uma hierarquia de subordinados a quem oferecia bens materiais para que os seus crimes permanecessem no segredo divino. Como tal, aos mais inteligentes (e importantes, talvez) oferecia carros de alta cilindrada; a outros, não tão condignos (e com uma ligeira diminuição de QI), brindava apenas com quantias de dinheiro; por último, aos mais lorpas, entregava sacos de cimento. Sim, leram bem, Godinho subornava gente com sacos de argamassa e essas pessoas, mais do que satisfeitas, iam provavelmente acabar as marquises lá de casa, quais trolhas de fato e gravata. Quem não deve achar piada de todo são por certo os ambientalistas, que temem perder a luta a favor da reciclagem com o lixo cada vez mais a dar que facturar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Crónica: "PUUUUUM... Amén!"

Portugal continua absorvido em refinadas questões religiosas. Desta vez, colocando escritores e manuscritos de lado, temos um novo protagonista, uma nova indumentária, uma nova profissão e, sobretudo, um novo “brinquedo”. Fernando Guerra, um padre da paróquia de Covas do Barroso, no concelho de Boticas, foi detido há uma semana em plena sacristia por suspeita de posse ilegal e tráfico de armas. Cordialmente, a GNR esperou pelo fim da missa das 7:00h para prender o sacerdote de 74 anos, que, se não estamos em erro, é mais do que idade para ter juízo. Esta espera demonstra, sem dúvida, mais uma prova de que esta celebração continua a ser sagrada. Pode vir uma pistola, um míssil ou um canhão, mas a questão resolve-se apenas e só depois do benzer.

O clérigo contou ainda com alguma companhia no que diz respeito às detenções deste caso. Com ele, mais três pessoas tiveram o prazer enorme de desfrutar dos cómodos assentos dos carros patrulha – o que para muitos, diga-se, é o sonho de uma vida. E essa experiência já ninguém lhes tira. Sortudos? Para todos os efeitos, sim. É ainda curioso esses três cúmplices terem idades compreendidas entre os 50 e os 54 anos, assim como serem todos pensionistas e reformados. Esperemos, todavia, que o aumento dos pedidos de reforma antecipada registados este ano não signifiquem uma corrida ao armamento em massa. A aposentadoria, averiguamos agora, é realmente capaz de mudar uma pessoa, ao ponto de evocar o seu lado mais cruel. Mais vale que Deus queira que não cheguemos lá. Oxalá, então.

Ao todo, o Núcleo de Investigação Criminal apreendeu 16 armas. Com tempo para tudo, ainda fica por saber se os polícias não terão avaliado o arsenal para renovar o seu próprio equipamento. Vontade talvez não tenha faltado, acreditamos. Mas mais substancial ainda é o tema que aborda o porquê deste crime cometido pelo sacerdote. E, pensando bem, motivos não são um grande quebra-cabeças. A onda de ateísmo e catolicismo não praticante encontra-se em permanente crescimento, ao ponto de assustar algumas entidades religiosas. Quiçá dono de um ódio secreto alimentado pela pouca freguesia nas suas missas, Fernando Guerra – agora sim, percebemos as origens do nome – estaria provavelmente a preparar uma perseguição armada pela localidade. Um tiro que saiu “furado” ao pároco. A reter, fica a prova irrefutável de que o bem e o mal podem trabalhar em conjunto: dentro e fora da casa de Deus.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Crónica: "A Bíblia é um Manual de... Costumes"

O Big Bang gerou, entre outras coisas graciosas, o Sistema Solar que, por sua vez, gerou a Terra. E esta, para o bem e para o mal, gerou o “Zé” Saramago. O polémico escritor, que continua a perder vendas e leitores para a Bíblia com o decorrer dos séculos, escreveu um novo livro, na esperança de que este sim acabe eventualmente por se tornar sagrado. Aliás, a convicção mantém-se firme pois o “mago”, durante o discurso de promoção ao seu volume, conseguiu a magnífica proeza de elogiar a sua obra e achincalhar a Bíblia nas mesmas rases. Assim escrito parece algo fácil de articular, mas as exigências ao nível da conjugação de orações e do vocabulário fazem com que estas sejam declarações única e exclusivamente ao alcance de um Premo Nobel da Literatura.

Convém referir, no entanto, que oratórias deste teor já não são de todo recentes. Recuando no tempo, o escritor já havia acusado Deus de ser cínico por não se ter ainda apresentado fisicamente aos humanos, inclusive o Papa, com quem nunca tomou café. Compreendemos que isto o deixe frustrado, já que a Saramago uma conversa com Deus seria de todo apetecível, para que pudesse descobrir o segredo por detrás do sucesso do “Livro Sagrado”. A entidade divina, contudo, parece não estar disposta a ceder, e é certo que durante os próximos tempos não sairá do Paraíso. E porque haveria Ele de sair de lá, sinceramente? Afinal de contas é o Paraíso, melhor é impossível, e somos obrigados a pensar na hipótese de Saramago invejar o lar do Criador a quem chama de “cruel, invejoso e insuportável”, e com quem trava contínuas disputas literárias.

As críticas foram inevitáveis e Joaquim Carreira das Neves, o notório teólogo, teceu comentários em que qualificou o autor como um “Gato Fedorento a brincar com a Bíblia”. O facto de já ter atingido o estatuto de Prémio Nobel e ser agora apelidado de felino e, sobretudo, mal cheiroso, faz alimentar a crença de que todo o português que se destaca nunca poderá ser uma pessoa relativamente… normal.

domingo, 25 de outubro de 2009

Anúncio: Novos Colaboradores!

::: Novos Colaboradores :::
::: Mudança do Nome - Escreve & Siga :::

Eu


Os seus nomes, da esq. para a dir.
Rui Costa, Filipe Pereira e Marta Caldas

Após um ano de escrita "a solo" aqui para o blog, anuncio que passarei a ter mais três colaboradores, na medida em que fazemos parte de um grupo de Área de Projecto do 12º ano cujo tema de trabalho é a elaboração de um jornal de parede informativo e satírico. Como tal, e porque as crónicas do jornal serão semanais, colocá-las-ei aqui para que possam continuar a desfrutar das boas palavras.

O título passará a ser: "Escreve & Siga" , que é igualmente o nome do jornal de parede. Espero a vossa compreensão e adesão.

domingo, 11 de outubro de 2009

Crónica: Enveredando pelo Karaoke

Entrar num palco e segurar os nervos é algo difícil. Encarar milhões de espectadores desconfiados e expectantes é intimidador. Realizar uma performance de luxo e encantar a multidão e o resto do Mundo é já qualquer coisa de astronómico, muito além de um simples show para os amigos. É a confirmação da bravura, da ousadia, da vontade e do talento. É onde poucos conseguem chegar. Precisamente por esse motivo foi inventado um sistema que utiliza o microfone para algo mais do que as escutas e falo, claro está, do karaoke.

Se por um lado o objectivo das escutas é ouvir o outro, o do karaoke é ser ouvido pelo outro. Uma pequena diferença que faz toda a diferença. Estou em crer que a capacidade de um objecto, como o microfone, ter mais do que uma simples utilidade confere maior colorido à vida. Como se ela contivesse uma arca sem fim e repleta de soluções para aquilo que pretendemos fazer. E onde estará a exuberância em cantar karaoke de saca-rolhas na mão? Ou empurrando a voz de encontro a uma colher de pau? A diferença cria o encanto, escapando da linha vertical que corresponde à ordem natural das coisas, em que cada acção tem o seu próprio apetrecho, e só esse.

Mas até onde nos leva o maravilhoso mundo das cantigas sem voz? Será possível ao jovem tímido e desafinado atingir o estrelato? Conseguirá o jovem agricultor que ajuda o pai durante a sementeira chegar ao topo da música popular? Aparentemente o primeiro obstáculo dessas “estrelas obscuras” é o saber ler. O karaoke baseia-se na exposição da letra à medida que a canção vai decorrendo em versão instrumental, sendo que as palavras são constantemente coloridas, conforme o ritmo e os tempos daquilo que deve ser proferido. Ou seja, confirma-se que até a profissão de cantor requer o esforço de quatro anos de escola primária. Escavar e manobrar o ancinho não constrói currículo, assim como ter uma voz cativante pode não chegar no caso de existir a incapacidade para decifrar os ditongos e as restantes conjugações. Depois, claro está, quem não conhecer o que canta dificilmente conseguirá acertar com a música, e entoar João Pedro Pais ao jeito do “Atirei o Pau ao Gato” constituirá, com certeza, um verdadeiro embaraço ao ponto do “cantor” em questão poder ser apelidado de algo que frequentemente actua no circo.

Encantar com as letras de personalidades conhecidas e animar quer a família ou os amigos com êxitos que todos conhecem consiste numa diversão e não numa obrigação. Certo dia Einstein exprimiu que “há duas grandes maneiras de viver a vida; uma é como se nada fosse um milagre; outra é como se tudo fosse um milagre.” Portanto, corra bem ou corra mal, tudo teve o seu motivo, e como os espectadores raramente ultrapassam as duas dezenas, restam os restante biliões de pessoas que mantêm uma opinião neutra, e por isso positiva, face aos dotes vocais daquele que foi, para todos os efeitos, o artista do momento.

sábado, 3 de outubro de 2009

Crónica: E Tu, Já Escutaste Belém Hoje?

Escutem, será apenas coincidência que os Jogos Olímpicos se realizem de quatro em quatro anos, que o ano bissexto ocorra de quatro em quatro anos, que o “madrileno” Kaká se tenha casado há quatro anos e que o actual Primeiro-Ministro tenha sido eleito pela primeira vez há quatro anos? A resposta é, como devem saber (escutar), um mero sim, e outra coisa também não seria de esperar. Provavelmente da última vez que se coligou cientificamente a política com o calendário gregoriano ou as olimpíadas com o matrimónio de estrelas do futebol nasceu a gripe A, pelo que não se aconselha de todo fazer este tipo de associações. Onde residirá então a coincidência para que todos a possam escutar? Pergunta retórica, se bem acabam de escut… perdão, reformulo: se bem acabam de reparar. Este português manhoso por vezes deixa-me de orelha quente.

Tardou em aparecer a sequela do búfalo, protagonizada por Manuel Pinho, mas a espera foi sem dúvida recompensadora. É verdade que se adoptaram rumos diferentes, afinal de contas a série terminou a temporada das férias de Verão, e nota-se agora a inclusão de novos temas como a tecnologia e o acto furtivo. A acção decorre sobre Sócrates e Cavaco, sendo que o vértice do triângulo se trata de um microfone clandestino. Ora, se anteriormente se apelava à problemática do chifre, somos agora sugados para um enredo de conversão de som em sinais eléctricos. E como tal, verifica-se que o verdadeiro vilão é na realidade um sujeito de cento e cinquenta e oito anos. Alega-se que Emie Berliner terá inventado o dispositivo no século XXIX já a pensar nestas eleições. No entanto, medroso, terá falecido com antecedência, por volta de 1929, temendo um desfecho em que presumivelmente acabaria acusado de cometer golpe de Estado.

De escutar também a questão referente à possível dispersão desta actividade que são as escutas. Aparentemente há quem possa encara-la como hobby e o número de adeptos, a pouco e pouco, é capaz de se tornar sucessivamente maior. Francisco Louçã, por exemplo, comunicou publicamente que Cavaco Silva não foi esclarecedor sobre o caso das alegadas escutas, o que é preocupante. Primeiramente pode parecer que se escuta um alerta para a prática correcta, no entanto há a sombria hipótese de Louçã estar a afirmar que Cavaco não praticou uma boa dicção enquanto estava sob escuta, pelo que dificilmente aqueles que escutavam conseguiam decifrar as palavras que o Presidente da República dava a escutar. E compreende-se, um grunhido ruidoso é bem mais complicado de perceber do que um discurso pausado e sereno. Portanto, concluímos que Louçã está aborrecido na medida em que, depois de tanto trabalho, nem mesmo assim conseguirá saber um pouco mais acerca da vida íntima de Cavaco Silva. Foi realmente uma desfeita esta má articulação das palavras por parte do Presidente e não deve tardar até que o líder do Bloco avance com o posicionamento estratégico de microfones em Belém por volta do episódio cem da série, que costuma ser por norma um especial de hora e meia no telejornal de sexta da TVI.

Escutando, por último, aquilo que merece igualmente ser escutado, direcciono a escrita para a vitória do PS nas legislativas. 36,56%, reflectindo que a maioria absoluta não vai com a cara de Sócrates. Contudo, esperam-nos mais dois anos de engenharia, talvez quem sabe seja desta que o Primeiro-Ministro eleva o seu posto até ao primeiro lugar da sensualidade masculina. Um tema certamente aberto a discussão, observação e escuta. A não perder.

sábado, 19 de setembro de 2009

Crónica: Eu Gosto é do Verão

Nesta altura do ano o frio reaparece durante pequenos intervalos, intercalados com o restante calor de Verão. Ora se calça o chinelo, ora se opta pela sapatilha, assim como a t-shirt e a swet, (e o casaco com três botões no caso do Primeiro-Ministro), variam mediante as circunstâncias. Pode-se dizer que o clima é algo representativo e que nos diz mais do que o óbvio, não influenciando somente a escolha da indumentária. Se repararmos, como que caracteriza as reminiscências do descanso e da “boa vida” que batalham contra a inevitável tarefa que a vida impõe: trabalhar. O resultado, ao fim de algumas semanas, é já um velho conhecido de todos. Portanto, não adianta o quanto se nega que chegamos ao começo de uma longa etapa, mais tarde ou mais cedo teremos que nos render e passar a viver uma rotina de… pequeno e médio interesse.

O último quadrimestre acaba por ser um período nostálgico. Alguns sentem saudades do posto de emprego. Outros tantos sentem saudades do início das férias. E há a outra percentagem, dos que sentem saudades de saber o que é trabalhar. Perspicaz, sinto eu que no terceiro caso seria consideravelmente mais fiável o recurso a uma escala aumentativa, mas como o vocabulário em voga se centra hoje no “pequeno e médio”, temia já não ser compreendido pelos leitores. Essas pessoas, ao contrário do que se pode pensar, e apesar da ausência de cargo, aparentam estar melhor do que os empregados da função pública, sendo que a prova disso é o disparo dos pedidos de reforma antecipada dos funcionários públicos entre Janeiro e Agosto do presente ano. Portanto, aqueles que se queixam continuadamente do condomínio, que se fartam de jogar cartas no café, que se aborrecem a ver televisão (agora até o telejornal de sexta da TVI foi retirado, pelo que ainda menos interesse passa na caixa mágica), não sofrem metade daqueles que querem findar por completo as suas relações com o Estado, preferindo uma vida pachorrenta a aturar a “tirania” da grande entidade… “democrática”.

No entanto, aqueles que muito novos são para ambicionar a simulação dos 62 anos, nada mais têm a fazer do que a contagem decrescente para o início do Verão. Tal não se aplica, por exemplo, na política portuguesa. Tanto os deputados, como os secretários de estado, os ministros e os restantes membros políticos deixaram de marcar riscos no calendário desde a “Revolução de Abril”. De facto não há de todo qualquer tipo de necessidade uma vez que se encontram em feriado permanente. A própria oposição chegou ao cúmulo de estar mais preocupada em lidar com conflitos de oposição interna, dentro do seu partido, o que nos remete mais para um cenário de puro desinteresse e falta de concentração nas questões deveras importantes. Ou seja, há a preferência pelo reinado absoluto e sem contestação ou oposição, em vez da primazia pela procura de soluções capazes de levantar o país. Podemos, ao fim e ao cabo, imaginar o seguinte cenário: “O partido X é muito bonito, tem ideias muito enriquecedoras… Mas espera lá, eu não sou o líder? Então já não serve. Abaixo o partido X! Viva o partido Y!”

Se isto é trabalhar em prol do país, não deixa de ser curioso que esses mesmos “trabalhadores” acusem o dedo aos estudantes que, por infortúnio ou por desleixo (porque sim, infelizmente da mesma forma que há gente que não se importa com o país também há quem não queira saber da escola), não obtêm os melhores resultados. Talvez até nem sejam estes os mais sacrificados. Os professores também têm protagonizado inúmeros episódios de revolta, entretendo o telejornal de sexta (à tarde). Mais trabalho para eles, mais pressão sobre os alunos e, no meio disto tudo, quem nada tem a ver com o assunto acaba por ser colocado na trama. Falo, claro está, dos ovos que foram atirados a determinadas entidades contra a sua vontade, certamente. A verdadeira falta de respeito, depreende-se, é para com as galinhas e os pintainhos.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Magazine Aqui do Sítio

domingo, 6 de setembro de 2009

Crónica: "Selecção Natural"

O Outono chegou para todos, e o que é certo é que as férias estão a ir para muitos. As folhas caem lentamente, uma a uma, cada qual aproximando a chegada de uma nova maratona de trabalho. E se isso, para alguns, é capaz de aumentar a ansiedade, o stress e o nervosismo, o que dizer de assistir a um jogo da selecção nacional? Arrisco em escrever que se torna potencialmente perigoso em termos clínicos. Numa altura em que também o futebol voltou para entusiasmar o povo, é caso para dizer que a única coisa que falta aparecer é a pontaria dos avançados portugueses. Essa sim, estava mais que na hora de dar um ar da sua graça mas teima em permanecer escondida, talvez estando de férias para o Algarve ou até mesmo de folga numa residencial no Gerês.

Antes de mais, deve ser dado o devido destaque à grande novidade em volta da equipa das quinas: ontem jogamos com um atleta naturalizado, Liedson. Muito se tem discutido acerca desta matéria, como se sabe. Deveria a Federação permitir a inclusão de mais um naturalizado no plantel português? Aparentemente não se formos a ver pelo meu corrector ortográfico no Word. O nome Liedson apresenta risco vermelho por baixo, o que significa que não faz parte do vocabulário português. Outra coisa, será que jogar com malta de origem estrangeira constitui uma raridade tão grande ao ponto de ser considerada novidade na selecção? Aparentemente não, se formos a reparar no historial recente que se tem vivido. Primeiro Deco, depois Pepe e agora Liedson. Aos poucos está-se a tornar um hábito tão banal como o de quem acompanha o pires de tremoços com o copo de cerveja. Uma boa conclusão que se pode retirar tendo em conta estes dados é a de que a designação de “selecção natural”, ao invés de selecção nacional, é sem dúvida um óptimo epíteto para a equipa portuguesa. Adapta-se à nova realidade e o próprio Darwin agradece, independentemente do sítio onde esteja, a divulgação de uma das suas teorias.

Mas não pensem que sou contra o facto de Liedson estar a jogar por Portugal. Na verdade, eu compreendo bastante bem a necessidade de isso acontecer. Com Hugo Almeida como ponta-de-lança titular os únicos a preocuparem-se em levar com a bola são os adeptos da bancada e não o guarda-redes adversário. A maneira como ele chuta chega por vezes a induzir uma pessoa em erro: ora julgamos que se trata de um jogador de futebol, nas raras ocasiões em que chuta ao lado da baliza, ora julgamos que se trata de um jogador de râguebi, nas restantes situações em que a bola sai a voar por cima. Pelos jogos que já vi admito que a última opção é provavelmente a mais acertada.

Essa falta de afinação na máquina goleadora portuguesa está a custar muitos resultados, e novo empate frente à Dinamarca, depois de muitas oportunidades falhadas, volta a complicar a contabilidade do apuramento. Mau resultado atrás de mau resultado, e os adeptos podem questionar o trabalho que tem vindo a ser feito por Carlos Queirós. Contudo, nesta matéria o Professor tem revelado progressos significativos. É louvável que um só cidadão tenha colocado outros doze milhões a fazer contas. Há muito tempo que não se via tamanha produção de resultados. O problema parece ser mesmo outro: enquanto deveríamos estar a fazer a conta para o número de dias que faltam para o Mundial, estamos, por outro lado, a fazer a conta para arranjar maneira de estarmos lá.

sábado, 29 de agosto de 2009

Crónica: Palavras para Quê?

Ao longo das décadas foram sendo criadas tecnologias para o bem comum. Se o telefone permitiu a comunicação à distância, a televisão facultou o visionamento da telenovela brasileira. Enquanto o martelo deu emprego ao calceteiro, a agulha possibilitou a realização do ponto cruz e do tricot. E ainda hoje vivemos um período em que vigora a hegemonia do papel higiénico, que veio substituir a folha de alface na questão higiénica. Conclui-se, portanto, que existiram sempre inovações que forçosamente alteraram o estilo de vida das populações.

Uma vez que nem sempre o modernismo veio trazer benefícios, existe também o lado negro nos bastidores do mundo evolucionário. O famoso Darth Vader de Star Wars transfigura-se no transeunte que circula passivamente numa metrópole e que encabeça a hierarquia de uma empresa de marketing e propaganda. Graças a essas personagens negras consideram-se actualmente três grandes tipos de publicidade: a saudável, a enganosa e por fim… a estúpida. E é nesta última em que recai a minha atenção desta feita.

Tomarei como primeiro exemplo a campanha do refrigerante “B!”, mais concretamente aquele cujo sabor é groselha. Vejamos então o que nos diz o slogan: “Não sejas ovelha, bebe B! groselha.” Curioso na medida em que o autor deve encarar neste momento grande parte da população mundial como ruminantes bovídeos. Aliás, é difícil acreditar que o público-alvo seja um rebanho de carneiros, mas a possibilidade de tal se verificar acaba por ser surpreendentemente alta. Se repararem, todos aqueles que lerem o anúncio pela primeira vez ainda não beberam o sumo, pelo que serão ovinos até que bebam da poção mágica que tudo cura e tudo transforma. No entanto, para pessoas que não apreciam o paladar da groselha a constatação desse facto significa em grande parte o suicídio.

A Vodafone aqui há tempos, para regalo dos ambientalistas, aproximou-se da Natureza e apresentou um anúncio que apelava aos pequenos prazeres da vida. A bonita história gira à volta de um protagonista invulgar, uma efémera. Vejamos o que nos é transmitido ao longo do reclame: “A efémera tem uma esperança de vida de apenas um dia. Mas será que isso a preocupa? Nem um bocadinho, porque ela preenche esse dia com as coisas que mais adora. Pense um segundo, se aproveitasse a vida como a efémera, já imaginou como seria?” Sou sincero e já fiz o exercício. Informo aos leitores que este bicho, a efémera, trata-se de uma criatura semelhante em termos físicos a uma libélula, passando o dia a voar de folha em folha, sem se alimentar, e é apenas preocupada em reproduzir a geração seguinte. Da minha alma proclamo que não é este o sonho da minha vida. Por um lado ninguém me tira o almoço e o jantar, e por outro prefiro dar asas à imaginação. Dito isto, também não sei de que modo aproveitar a vida como a efémera me iria trazer a necessidade de recorrer a um telemóvel. De todas as vezes que fiz chamadas telefónicas nunca tive a felicidade de ligar para um insecto e já vou a meio das Páginas Amarelas e estou em crer que talvez isso não aconteça num futuro próximo.

Sirvo-me destes dois exemplos como poderia servir-me de outros dois (mil). Coisas como estas andam por aí e slogans como “pare a diarreia antes que a diarreia o pare a si” acabam por ser o culminar de todo este cenário negativo. Enquanto nos outros dois os visados eram animais, este último centra-se em dejectos que são excretados pelo Homem. Bastante apelativo, sem dúvida.

E agora digo: se eu podia viver sem anúncios estúpidos? Bem, podia… mas não era a mesma coisa.